D. Pedro II, o Imperador viajante

Pedro II tomou gosto pelas viagens, que alimentavam sua imensa curiosidade intelectual e o prazer do convívio com homens de cultura. O Conde Gobineau, representante da França no Brasil, era seu interlocutor preferido e o assistiu nas últimas viagens que fez. Aliás, o fato de a Condessa de Barral – e Viscondessa da Pedra Branca no Brasil – ter vivido longos anos em Paris foi o motivo inicial de muitas conversas entre ela e D. Pedro II, que acabaram desaguando em bonito e respeitoso romance, que foi até o fim da vida dela, nove meses antes de morrer, em Paris, no Hotel Bedford , hoje restaurado, na região da Madeleine, onde, aliás ele foi velado..

O Imperador dos brasileiros, filho de D. Pedro IV e irmão de D. Maria II de Portugal, estudou muitos idiomas, inclusive o hebraico. Foi, por duas vezes, à Terra Santa e ao Egito.  Fez também uma longa e histórica viagem aos EUA , QUANDO DA EXPOSIÇÃO DA Filadélfia, e comprou para o Rio de Janeiro o primeiro telefone do próprio Graham Bell . Percorreu os EUA de costa a costa de trem.

Em 1872, ao regressar de uma longa viagem, escolheu o Porto para permanecer cinco dias, antes de regressar ao Brasil. Apesar de homem simples e de viajar como cidadão e não como Imperador, era acompanhado de uma comitiva respeitável. Por isso, o cônsul do Brasil no Porto, Manuel José Rabelo, ficou responsável por reservar alojamentos compatíveis com o grupo, escolhendo, no Grande Hotel do Louvre, na Rua das Flores, uma suíte e 20 quartos.

A proprietária do estabelecimento, Maria Henriqueta de Melo Lemos Alvelos e Silva,  inicou investimentos em móveis, casas de banho, rouparia, tudo que pudesse estar a altura dos ilustres hóspedes brasileiros. No dia 29 de fevereiro daquele ano, a edição do jornal Comércio do Porto até noticiou, com detalhes, a contratação de um cozinheiro de Lisboa e mais 22 empregados para bem servir a comitiva Imperial.

O diplomata Rabelo parece que não era homem com o perfil que hoje se faz dos membros da carreira, na habilidade, no tato, na cordialidade no trato de assuntos relacionados com as funções exercidas. Isso permitiu uma série de mal-entendidos quanto ao valor e ao pagamento da hospedagem. Por sua vez, D. Maria Henriqueta, a proprietária e gestora do hotel –  coisa raríssima naqueles tempos em que as mulheres não exerciam funções comerciais –, não soube se conduzir bem na questão.

O resultado é que a falta de um entendimento até a partida do Imperador do Brasil impediu que a conta fosse paga. Apresentada, foi considerada abusiva por parte do cônsul do Brasil, que se negou a pagar. A hoteleira correu a Lisboa, ao Hotel Bragança, para tentar falar ao próprio Imperador, mas não conseguiu. O assunto transpirou e virou escândalo, noticiado na imprensa local e em Lisboa. D. Maria Henriqueta aparecia de vítima.

Ocorre que o motivo do desentendimento foi o montante da conta, mil Libras, valor considerado exorbitante pelo cônsul. A lesada, depois, insinuou que a reação do diplomata poderia estar relacionada ao desejo de receber alguma comissão sobre o negócio.

Anos depois, o escritor Gomes Monteiro publica, em um de seus livros, capítulo sobre o caso, atribuindo ganância à D. Maria Henriqueta e contando que quatro portugueses, do Porto, retornados do Brasil com grande fortuna, se uniram e resolveram pagar a conta. Como dispunham do valor no Rio de Janeiro, ainda pagaram a passagem para a hoteleira buscar as mil Libras. O que teria sido feito com sucesso. Mesmo assim, D. Maria Henriqueta acabou se dando mal. Perdeu o hotel, abriu outro na Foz, que fechou posteriormente, e morreu na miséria.

Na narrativa de Gomes Monteiro, a conversa entre  Maria  Henriqueta e Manuel José Rabelo foi do mais baixo nível. A referida senhora teria afirmado, se fosse para pagar pouco pela hospedagem, que ele tivesse levado a comitiva para uma estalagem no Poço das Patas.

Um episódio que deve ser esclarecido, pois, dada a repercussão obtida, interpretações negativas podem atingir a imagem do governante brasileiro por 49 anos, que possivelmente nem tomou conhecimento do ocorrido. O cônsul foi inábil e a hoteleira tentou se aproveitar da situação para lucrar mais do que o devido, é o que fica claro no exame  do lamentável episódio.

Pedro II, quando deposto,em 1889, foi para o Porto, onde dias depois veio a falecer sua mulher, Imperatriz Teresa Cristina, no Grande Hotel. E a conta foi paga sem problemas.

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