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A ligação de intelectuais brasileiros e portugueses através dos tempos é um dos fundamentos da solidez da presença da língua portuguesa no mundo contemporâneo. Esta integração, hoje, é facilitada pelos meios digitais e a circulação das pessoas, que tornam as viagens entre os dois países separados pelo Atlântico como se fosse uma viagem interna.
Há semanas, Lisboa recebeu intelectuais, juristas e políticos brasileiros para um encontro. A presença mútua de homens de letras tornou-se uma rotina. Na música, Fafá de Belém, Caetano Veloso e Maria Bethânia frequentam Lisboa e Porto como o Rio e São Paulo, mas é a jovem Giulia Be, a mais ouvida em Portugal, assim como Ana Carolina. Nas rádios, a presença de Tom Jobim é sempre destaque. Assim como José Saramago, Lobo Antunes, Miguel Sousa Tavares e Agustina Bessa-Luís estão nas livrarias brasileiras, ao lado dos ícones Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e Fernando Pessoa.
No século passado, sem Internet e sem voos diários, na primeira metade, o brasileiro mais militante na literatura dos dois países foi Pedro Calmon, o grande historiador, orador e professor. Ele foi da Academia Portuguesa da História, da Academia de Ciências de Lisboa, estudioso de Camões e doutor em Coimbra. Teve ainda ligação com Portugal em quase todos os seus mais de 70 livros, incluindo a notável obra sobre a História do Direito em Portugal. A biografia que escreveu de D. João VI é elogiada. Pedro Calmon foi presidente perpétuo do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, a mais importante e relevante instituição cultural brasileira, fundada e frequentada pelo Imperador D. Pedro II. Foi um ilustre intelectual brasileiro e grande estudioso de Padre Antônio Vieira.
Como historiador e biógrafo fundamental na historiografia brasileira, Pedro Calmon mostra em sua obra respeito, reconhecimento e afinidades entre os dois povos e sabe atribuir os créditos à colonização portuguesa. Sua obra anda meio escondida pela influência marxista no meio acadêmico brasileiro, daqueles que criticam e procuram desqualificar a presença portuguesa na formação do povo e da nação brasileira. A moda agora é a questão da escravatura, de vinha dos tempos de Cristo, numa vitimização que se limita a ala esquerda dos movimentos negros. Neste capitulo justamente é notável a singularidade de nossa miscigenação e a maneira com que os escravos eram tratados.
Portugal está na origem de obras fundamentais da história do Brasil, como a biografia de Pedro II feita por Heitor Lira quando diplomata em Lisboa, e a obra de referência A Capitania de Minas Gerais, de Augusto de Lima Junior, que, na segunda edição, contou com o prefácio de Jaime Cortesão. Gilberto Freyre, que frequentou Portugal desde muito jovem, lançou o luso-tropicalismo com base em conhecimento da história e do país como um todo, incluindo o ultramar que visitou nos anos 1950. Agora, o último livro de Nélida Piñon foi escrito em seu ano sabático em Lisboa. E o acolhimento vem desde sempre, como no caso do professor Marcello Caetano, membro corresponde da Academia Brasileira, sendo o ilustre português, quando no exílio no Rio de Janeiro, frequentador das sessões da Academia Brasileira.
Esta ligação forte não tem patrocínio oficial, vem do mercado, da vontade do leitor, do apreciador da música, dos que acompanham as novelas, que de certa forma influiu nas ultimas décadas em alterações na maneira de ser do português.
Publicado em: Jornal Diabo.- Portugal 04-12-21