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O grande pensador espanhol Ortega y Gasset morreu há 70 anos e seu pensamento sobre regimes políticos estão muito atuais. Homem da paz, foi sempre crítico dos radicalismos e guerras; por isso, viveu longe do palco dos acontecimentos radicais e não se deteve em avaliar os regimes dos países em que viveu no autoexílio, como Portugal e Argentina, assim como a Espanha natal para onde voltou após a Segunda Guerra. Em Portugal, chegou a dar aulas e, no Brasil, tinha em Gilberto Freyre um democrata de centro-direita como seguidor. Hoje, o maior conhecedor de Ortega y Gasset no Brasil é o historiador Arno Wehling, membro da Academia brasileira e icônico presidente do Instituto Histórico. Arno nada tem de esquerda.
Quando da Guerra Civil na Espanha e, logo depois, durante a Segunda Grande Guerra foi morar em Lisboa e, em seguida, em Buenos Aires, só voltando à Espanha em 1946, bem longe dos conflitos marcados pela extrema violência.
Sua postura liberal foi e ainda é interpretada pelas esquerdas como crítica aos regimes de direita. Mesmo distante dos líderes de direita de sua época, seu não alinhamento nada tinha além de sua postura condenando a polarização que dividia o mundo, tanto à direita como à esquerda.
Tivesse sido opositor a ponto de não conviver ou de ser aceito por governos de direita, não teria buscado viver três anos na Lisboa de Salazar, nem na Buenos Aires do General Perón, claramente identificado com o franquismo. E não teria voltado a Madrid para viver até a morte, atuante como intelectual sem ser incomodado pelo regime. Aliás, logo após sua morte, Madri deu seu nome à importante rua no bairro Salamanca.
Em relação ao comunismo, foi claro ao condenar a intervenção do estado na economia e, em nome do interesse das massas, se implantar o estado totalitário. A coragem moral e intelectual com que exerceu sua vida e obra de filósofo não só o aproximou dos notáveis de seu tempo como o fez atuar em defesa das vantagens da influência da aristocracia, no sentido de formação intelectual no destino das nações. Alertava para o perigo das massas levarem a governos autoritários por temer a vulgaridade desses movimentos populistas. Sua teoria incluía que a maioria inculta deveria seguir a minoria culta.
Parte da esquerda procura interpretar seus textos com críticas à direita quando não resta dúvidas de que ele não aceitava a direita, nem a esquerda,
pois era crítico da polarização, do radicalismo, da vulgaridade típica dos extremistas. Outro segmento da esquerda cobra do filósofo e pensador, intelectual, uma postura crítica aos regimes mais à direita em seu tempo. Coerente com seu pensamento é que não se envolveu neste julgamento, limitando-se a opinar no campo da Filosofia. Desistiu da política quando renunciou ao mandato de deputado e dedicou-se exclusivamente à Filosofia.
Apesar de agnóstico, teve textos próximos aos da instituição católica espanhola Opus Dei. Estudou em colégio jesuíta e, no final da vida, surgiram versões de uma reconversão nos últimos dias que o teria levado a receber o sacramento da extrema-unção.
A conclusão é que o filósofo espanhol não foi de direita nem de esquerda. Acreditava na meritocracia mais do que na democracia.
Publicado em: Portal Diabo PT 25/04/26
