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Nestes 200 anos da morte de D. Joao VI se consolida a revisão de sua figura perante a história, vítima ao longo destes dois séculos de uma série de preconceitos, inclusive entre monárquicos portugueses. D. João VI contrariou os franceses, Napoleão em especial, com sua atitude de transferir a corte para o Brasil, deixando o General Junot a ver navios em sua entrada em Lisboa. Mudou a capital de Salvador para o Rio de Janeiro, fundou o Reino Unido e a própria nação brasileira. Deu ao Rio de Janeiro foro de grande metrópole, com a criação da Imprensa Régia, do Jardim Botânico, da Biblioteca Nacional e criou a Marinha do Brasil para dois anos depois invadir a Guiana Francesa e anexar aquele território ao Brasil. Contou com a colaboração de alguns destacados homens públicos portugueses.
Ao regressar a Portugal, teve a visão de dizer ao filho príncipe herdeiro que, se fosse necessário, “separar o Brasil e assumir a coroa antes que algum aventureiro o fizesse”. E assim foi feito.
D. João VI e seus mais próximos reconheciam no filho Pedro e na neta Maria da Gloria os herdeiros da Casa de Bragança, enquanto sua mulher, Carlota Joaquina, preferia o outro filho, D. Miguel. Como esta divisão durou um século e meio, a parte miguelista engrossou o grupo que fazia por desmerecer e até mesmo ridicularizar o monarca que se revelou estadista de visão.
Tem repercutido o livro de Paulo Rezzutti recuperando a imagem do rei de Portugal, Brasil e Algarves. Foram 200 anos, mas antes tarde do que nunca, diz o provérbio popular.
Já o professor Antônio de Oliveira Salazar homem que governou Portugal por quatro décadas, ainda está no limbo, reconhecido e admirado na memória popular, mas cercado pelo silêncio em torno de seu nome e obra. As sucessivas eleições em Portugal, mesmo sabendo da popularidade do velho professor de Coimbra, nenhum político, governante ou parlamentar teve a iniciativa de pelo menos devolver ao estadista o nome de obras e logradouros públicos, em que a ponte sobre o Tejo é exemplo maior.
Não se pode negar a honestidade do Lider, sua vida simples, sua dedicação sacerdotal à função exercida como missão cívica e os benefícios que trouxe ao país, que resgatou do caos e da fome. Claro que cometeu erros ou omissões, mas o saldo parece altamente positivo, pela época e pelo que veio depois da queda do regime que criou.
Volta e meia, morre um membro do movimento de 25 de abril e é saudado na imprensa e até pelo poder público como grandes heróis pela liberdade e democracia. Não se fala que muitos deles, na verdade, queriam substituir o regime autoritário pela ditadura do proletariado é quase conseguiram. Acusam o período salazarista de ter presos políticos, mas cuidaram de prender centenas de pessoas sem acusação alguma, confiscos de propriedades, destruição de empresas e queima de preciosas reservas internacionais que Portugal tinha. Uma cortina de silêncio sobre as ligações com os interesses da antiga União Soviética, que inspirou a entrega dos territórios ultramarinos à esfera comunista e ao abandono de centenas de milhares de portugueses ali nascidos ou ali moravam, tinham família e construíram patrimônio. Foram simplesmente abandonados. Atos de selvageria, como a ocupação do Hotel Ritz de Lisboa, foram esquecidos ou considerados naturais.
Parcela relevante de portugueses, a grande maioria da comunidade que vive fora do país sem perder o amor à pátria, espera que Salazar não venha a ser reconhecido pelas suas qualidades somente daqui a 200 anos. Afinal em termos de coragem e autoridade para impor disciplina e trabalho seu nome é referência assim como o Marques de Pombal.
Este “saneamento” perpétuo não dignifica o país.
Publicado em: Jornal O Diabo.pt 11/04/26
