Getting your Trinity Audio player ready...
|
No Brasil, os governantes que apresentam pontos positivos, avanços, tão logo começam a ter o reconhecimento da sociedade são atingidos por implacável tiroteio e processo investigativo alimentado por ressentimentos, inveja e medo.
Quando da primeira eleição direta para presidente, após o período militar, o eleito foi Fernando Collor de Mello. Venceu Lula e Brizola, este chegou em terceiro e por muito pouco não foi ao segundo turno. Na disputa, a esquerda ainda tinha Mário Covas e até um comunista, o então deputado Roberto Freire. Na decisão de segundo turno, prevaleceu o temor de uma aventura esquerdista e Collor venceu.
Muito jovem, o eleito veio de uma gestão na Prefeitura de Maceió e no governo de Alagoas, que lhe proporcionaram o mínimo de experiência para procurar mudar o Brasil. Com boa base cultural, viajado, o novo presidente modernizou o país, desburocratizou, deu início ao processo de privatização. Cercou-se de uma equipe muito provinciana, que cometeu erros graves, e no plano nacional foi prejudicado por projetos audaciosos mal explicados. O famoso congelamento de poupança acabou se mostrando um bom negócio quando da liberação. Mas a orquestração da imprensa e a falta de uma boa assessoria o levaram ao impeachment, embora tenha formado um último ministério entre os melhores que o país teve.
Sucedido pelo seu vice, Itamar Franco, este da escola conciliadora mineira, acabou apoiando o plano de estabilização da moeda, que acabou sendo sequestrado para fins políticos por um grupo que pegou o plano já na parte final. O autor maior do projeto do Real foi o ministro Eliseu Resende, cabendo a FHC implementar. O sucesso e o reconhecimento popular não impediram Itamar de ser isolado, tendo se refugiado em Minas, onde foi eleito governador e depois senador.
FHC, o governante que teve a melhor imprensa da história, fez aprovar a sua reeleição e, no final, facilitou a eleição de Lula pensando num terceiro mandato em 2006.
Lula teve sorte na conjuntura internacional e conseguiu ser reeleito e fazer sua sucessora, apesar de os primeiros escândalos envolvendo o seu partido e aliados já estivessem sendo conhecidos. Já Dilma foi um fenômeno, pois navegou entre os escândalos, embora não tenha sido envolvida diretamente, e logrou uma reeleição, em que teria contado com certa indiferença da ala esquerda do PSDB paulista. Impedida pelas falhas na gestão da economia, o seu vice, Michel Temer, assumiu e fez o melhor dos mandatos mais recentes da República. Promoveu reformas significativas, mas também foi alvo da implacável ciumeira das esquerdas que montaram uma armadilha para o comprometer por simples conversas e levar junto Aécio Neves, o mineiro que vinha de dois bons mandatos em Minas e uma eleição presidencial em que perdeu por muito pouco.
Antes, estes grupos de diferentes matizes de esquerda já haviam prejudicado José Sarney, que teve um mandato marcado pela sua habilidade, tolerância, experiência e mãos limpas. Mesmo assim, a esquerda não perdoou seu projeto de consolidação democrática com os militares, e não contra eles. Não permitiu revanchismos.
Este clima de desgaste dos políticos tradicionais abriu espaço para a aventura de Bolsonaro, que, com boa orientação, conseguiu fazer um bom mandato, tendo, entretanto, construindo a derrota final com um comportamento marcado por grosserias, brigas, polêmicas e atitudes, no mínimo, exóticas.
O genial Roberto Campos tinha razão nas suas oportunas frases como a que “o Brasil não perde uma oportunidade de perder oportunidades”, ou “no Brasil, o sucesso é imperdoável”.
Publicado em: Jornal Diabo.pt 09/08/25