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A nossa República tem coisas realmente curiosas. O Marechal Floriano Peixoto era o vice do Marechal Deodoro da Fonseca, ambos alagoanos e companheiros de proclamação. Brigaram e Deodoro renunciou. Floriano assumiu e governou de mão forte, mas era homem tão simples que continuou a morar em sua modesta casa de subúrbio.
Ocorre que, durante seus anos de governo, Floriano nunca abandonou o título de vice-presidente da República e, nesta condição, assinava todos os atos oficiais. O normal, como acontece hoje, é que o vice, quando assume e assina atos, o faz na condição de “presidente da República em exercício” e nunca como vice. Floriano foi muito polêmico e levou muita gente boa ao exílio, como o paulista Eduardo Prado, fundador da Academia Brasileira e inspirador de Eça de Queiroz em seu livro A Cidade e as Serras, que marcou forte presença em seus anos de Paris.
Outro vice que fez história foi Delfim Moreira. Assumiu com a morte de Rodrigues Alves, que, no segundo mandato, não ficou nem dois meses no governo, e foi reconduzido ao lugar de vice, quando não havia reeleição, com Epitácio Pessoa. Delfim, na verdade, sucedeu a Wenceslau Braz, que era não só mineiro como ele, mas seu primo.
Nossos vices tiveram sorte, pois Café Filho, deputado pela Paraíba, indicado por Adhemar de Barros para vice de Getulio, assumiu em 24 de agosto de 1954 e foi deposto em 11 de novembro de 1955, junto com seu vice, que era o presidente da Câmara, deputado Carlos Luz, de Minas. Assumiu por dois meses, então, Nereu Ramos, presidente do Senado e que já tinha sido vice do Presidente Dutra.
Logo depois, com a eleição de Jânio Quadros e sua renúncia, assumiu João Goulart (Jango), de setembro de 1961 a 31 de março de 1964, quando foi deposto. Pedro Aleixo, vice de Costa e Silva, não teve melhor sorte, pois foi impedido de assumir.
Na redemocratização, em 1985, o presidente eleito, Tancredo Neves, não chegou a assumir e seu mandato foi exercido por seu vice, José Sarney. Este teve como sucessor, na primeira eleição direta, Fernando Collor, que sofreu impeachment e foi substituído pelo seu vice, Itamar Franco. Por fim, Michel Temer, o vice de Dilma Rousseff, que sofreu processo de impeachment, assumiu. Ou seja, vice não é tão decorativo como pode parecer.