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Aspectos pouco explorados pela historiografia brasileira, portuguesa e francesa são as relações entre os três países ao longo de meio milênio.
O Brasil deve sua formação como nação, em 1808, a transferência das cortes para o Brasil quando da invasão do país pelas tropas napoleônicas. A iniciativa do então Principe Regente D. João VI criou as primeiras instituições do país que surgia onde há 300 anos era uma rica, mas distante colônia. Não foi o ouro ou os diamantes, nem a madeira que tornaram o Brasil um país organizado, mas sim o conflito europeu.
Junto com a cúpula do reino português, sendo responsável pela criação de instituições como a Casa da Moeda, a fábrica de pólvora, a Biblioteca Nacional – 20000 mil preciosos volumes que permaneceram no país –, a Escola Nacional de Belas Artes, o Jardim Botânico no Rio e a abertura dos portos para o comércio internacional, ganhou força a influência cultural, artística, arquitetônica e gastronômica da França, e esta permaneceu até meados do século XX. A Marinha foi criada pelo britânico Almirante Cochrane para permitir o revide de D. João VI ao invadir e ocupar a Guiana, território francês ao norte do Brasil.
Durante o século XIX e início do XX, a elite brasileira lia, falava e até rezava em francês, sendo os educandários femininos de ordens religiosas francesas, assim como devoções. O Brasil foi o segundo país do mundo, no início do século XX, na devoção à Santa Teresinha de Lisieux, assim como Nossa Senhora de Lourdes. O Brasil foi ilustrado pela pena de Debret. A Missão Francesa, logo após a queda de Napoleão, trouxe ao Brasil dezenas de artistas e artesãos que criaram as Belas Artes e moldaram a cidade do Rio de Janeiro, já capital do reino, na arquitetura, nos monumentos e nos jardins. Um dos mais emblemáticos jardins da cidade, a Praça Paris, é exemplo. Foi fundamental em proteger e apoiar os franceses que chegavam o eficiente ministro Conde da Barca.
Antes da chegada de D. João VI, os franceses fizeram três investidas sérias no território brasileiro. No Rio de Janeiro, com o projeto da França Antarctica, sob o comando de Villegagnon, no século XVI, por 12 anos e logo no início do século XVII, no Maranhão, onde foi fundada a cidade de São Luiz, homenagem ao rei-santo francês. Já no final do século XIX, com a Proclamação da República, o Imperador D. Pedro II optou por terminar seus dias em Paris, tendo sua filha Isabel casada com filho do rei Luís Felipe, o Conde d’Eu. A República foi um movimento positivista, sendo a divisa da bandeira republicana “Ordem e Progresso”, lema de Auguste Comte. Nos anos 1920, após a I Grande Guerra, uma missão militar francesa veio ao Brasil e, durante 20 anos, reformulou e organizou o Exército do Brasil, com instrução e armamento de origem francesa.
As ligações das duas monarquias no século XIX foram grandes, em Portugal como no Brasil, nos casamentos. A herdeira do trono brasileiro, Princesa Izabel, casou-se com o Conde d’Eu, neto do último rei de França, Luís Felipe, e a última Rainha de Portugal, D. Amélia, viúva do Rei D. Carlos, era Orleans.
Nos anos 1960 do século passado, uma crise envolveu os dois países no que ficou conhecido como “guerra da lagosta”, com o Brasil reagindo a barcos franceses que pescavam lagostas no Nordeste, na costa de Pernambuco. Este episódio fez com que os militares, que logo assumiriam o governo brasileiro, decretassem em 350 milhas a plataforma continental do Brasil no Atlântico. A crise foi mais grave do que poderia ser, não fosse De Gaulle o presidente da França na ocasião.
Publicado em: Jornal Diabo.pt 09/05/26
