ZEMA ENTRA NA MIRA

A política lamentavelmente tem seu lado cinza, do qual devemos tentar passar sempre que possível ao largo. Ouvi esta frase do dr. Tancredo Neves, em seu escritório de campanha, no edifício Guanabara, em Brasília, em outubro de 1984. Ele já estava com a vitória assegurada e acabava de receber um deputado do PDS muito ligado ao presidente Figueiredo, que o procurou para declarar seu apoio. Dr. Tancredo ficou tão constrangido, contou ainda sob o impacto da visita, que disse ter agradecido o apoio, mas que dele declinava em homenagem ao presidente Figueiredo, que ficaria muito desencantado com o amigo. Disse que a observação saiu do fundo de sua alma e que o homem ficou branco, sorriu e saiu. Ao cumprimentar o deputado, com quem eu tinha relações, percebi que ele estava muito pálido realmente.

O governador Zema, provavelmente, ainda não se habituou com este lado cinza, que são as traições, as maldades forjadas, a sabotagem ao interesse público em favor do privado, pessoal ou eleitoral. Homem de bem, tendo optado pela vida pública depois de vitoriosa passagem pelo setor privado, certamente será longevo na política, sabendo que nem sempre as versões correspondem à verdade. Lamentavelmente, aprenderá sofrendo essas agressões sobre a forma de insinuações de muito baixo nível.

Essas observações vêm a propósito do noticiário maldoso, semana passada, em jornais de São Paulo, sobre a consultoria do publicitário Paulo Vasconcelos, uma referência no setor, mineiro, sediado em Minas, respeitado pela sua competência. A leitura de uma das notícias causa náuseas pelas sórdidas insinuações e agressões a terceiros.

O fato de haver servido ao deputado Aécio Cunha, que presidiu a Câmara dos Deputados, foi governador por dois mandatos, saiu fazendo o sucessor e se elegendo senador, nada pode ter de desabonador. E não é correto prejulgar o ex-governador, no pleno exercício de seu mandato e de seus direitos políticos, sem nenhuma condenação, apenas por ter sido citado por delatores de diferentes operações em curso no país. O desgaste dele deve-se ao momento infeliz de uma conversa gravada, da qual teve a humildade de se desculpar, estando ele no exercício do mandato de senador há seis anos, logo, sem função executiva que pudesse compensar, eventualmente, seu interlocutor. O tempo vai dizer se o governador de dois mandatos, e fazendo seu sucessor, cometeu algum deslize ou não. Aliás, alguns dos melhores quadros da política mineira ajudaram Aécio a cumprir com sucesso seus mandatos e sobre eles não pesam acusações de malfeitos.

Esse episódio vem mostrar que eventuais candidatos à sucessão do presidente Bolsonaro começaram a ver no governador de Minas um possível rival. Não perceberam que esta possibilidade pode se tornar real justamente por ele estar preocupado em fazer um bom governo, retirar Minas da situação falimentar em que se encontra e, se disputar a Presidência, não será nunca por iniciativa própria, mas por convocação de forças vivas da nacionalidade, com base na sensibilidade popular de escolher o melhor.

O governador deve se conformar que é melhor assim: é atacado por se firmar como nome nacional, e não por estar envolvido em brigas ou falcatruas.

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