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Quando os estadistas portugueses derrubados no 25 de abril chegaram ao Rio de Janeiro, foi com surpresa que se constatou que o presidente da República e o primeiro-ministro não dispunham de recursos financeiros. O presidente Américo Tomás foi acolhido na casa de um português relevante na comunidade, Avelino Fernandes, e o primeiro-ministro, Marcelo Caetano, no Mosteiro de São Bento.
À medida que os empresários e profissionais liberais iam chegando, em fuga de prisões arbitrárias, invasões de domicílios e outras medidas autoritárias e sem amparo legal, verificou-se uma aristocracia e elite empresarial que não dispunha de recursos fora de Portugal. Muitos foram abrigados por parentes e amigos até obterem um lugar no mercado de trabalho – mulheres fazendo doces, como o toucinho do céu, incorporado à doçaria brasileira desde então. Nada parecido com o que veio a ocorrer depois, quando os novos donos do poder passaram a ter rendimentos pouco explicados.
Marcelo Caetano, ao ser contratado para dar aulas na Faculdade Gama Filho, onde foi apresentado pelo embaixador Negrão de Lima, recebeu de seu filho José Maria uma modéstia quantia com que adquiriu roupa de cama e utensílios para o apartamento que alugara em imóvel de classe média no bairro do Flamengo.
Outro dignatário do Estado Novo, tido como homem de recursos, o Almirante Henrique Tenreiro, foi morar num apartamento adaptado de motoristas de outro comendador português.
O General António Spindola foi outro que viveu no Rio com seu grupo em vida modesta, em hotel de três estrelas e com ajuda do político Carlos Lacerda.
Não houve caso de dirigente que chegasse com recursos. Grandes nomes do Direito, como Inocêncio Galvão Teles, Alberto Xavier e Assis de Almeida, começaram do zero e logo tiveram sucesso. A advogada Maria Teresa Lobo fez concurso para juíza e passou em segundo lugar.
Apesar da devassa a que foram submetidos, nenhum membro do Estado Novo português teve seu nome envolvido em negócios nebulosos, fato que vem se tornando habitual nos governos civis de centro-esquerda e esquerda nos últimos anos. O exemplo de austeridade de Salazar foi mais forte do que se podia imaginar.
Publicado em: Site jornal Diabo.pt 29/08/26
