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Sinal dos tempos é a cada vez maior ditadura das esquerdas no mundo intelectual mundial. Talento, criatividade, obra, de nada valem para premiações e eleições acadêmicas se o intelectual não tiver uma passagem pela esquerda e defenda a pauta deste novo mundo.
No caso brasileiro, em que a Academia Brasileira elegeu recentemente, pelo menos, cinco novos membros, não se cogitou nenhum nome que não carregasse este carimbo. Sem tirar o mérito dos eleitos, surpreende que não se tenha aberto um mínimo de pluralidade para eleger uma escritora de mais de 40 livros como Mary Del Priore ou o mais completo intelectual moderno, que é Nelson Motta. Há dois anos já haviam derrotado Ricardo Cravo Albin , conhercedor e curador do patrimonio da musica popular , jornalista e escritor, criador do Museu da Imagem e do Som.Outro “ esquecido pelos donos da Academia é o notável editor José Mário Pereira, notável pela cultura e pelas edições de tantos academicos.
Nelson, aos 77 anos, conhecido internacionalmente pela presença no mundo da musica, é um intelectual contemporâneo, moderno, liberal, com uma visão e militância ampla nas diferentes áreas culturais.
Jornalista há meio século, na mídia impressa e na televisão, escritor de sucesso, compositor e letrista consagrado, produtor musical, teatrólogo, é neto do acadêmico Cândido Motta Filho, homem da Semana da Arte Moderna, em 1922, jurista que chegou ao Supremo Tribunal. O melhor biógrafo de Eduardo Prado, o fundador da Academia Brasileira, que morou em Paris e foi amigo íntimo de Eça de Queirós. Sobrevive o debate de que “A Cidade e as Serras” tivesse o perfil de Jacinto de Thormes em Eduardo Prado.
Nelson de uma vida intensa, no mundo cultural como no pessoal – foi casado quatro vezes e semicasado umas dez, como relata em seu último e vitorioso livro de memórias “De Cu Para a Lua”, entre os mais vendidos do ano passado para cá. Entre as ex-mulheres, duas consagradas artistas, Elis Regina e Marília Pêra. Muito jovem, foi pioneiro na Bossa Nova, cujas primeiras reuniões foram no apartamento de seus pais. Em Portugal, onde passa longas temporadas, produziu um álbum para Cuca Roseta, que canta algumas de suas canções. É bem relacionado e conhecido dos portugueses, já que tem livros editados desde sempre no país.
Nas suas disputadas entrevistas e quando participou, em Nova York – onde morou nove anos – do mais importante programa jornalístico da TV brasileira, com Paulo Francis, outro notável, sempre mostrou sua admiração pelo modelo dos EUA para onde todos correm e encontram trabalho, liberdade e reconhecimento do mérito, além de uma exemplar democracia. Também incorreu no index esquerdista ao afirmar que “os erros do PT foram monstruosos” e, agora, define a disputa Lula-Bolsonaro como entre dois grandes mentirosos.
Atuou em linha com as esquerdas quando do regime militar brasileiro, que cometeu, entre os seus erros, a censura, que um intelectual como ele não podia compactuar. Mas, restabelecida a democracia, afastou-se dos “manifestos”. No seu entender, o palco deve ser de eleições e para a divulgação de opiniões, e não imposições.
Seu último livro é tão moderno em termos literários que antecede o sucesso mundial do italiano Antonio Scurati, autor de M – O Filho do Século, que narra ano a ano da vida de seu personagem, como Nelson nestas memórias recentes, em leitura que prende o leitor.
Nelson não chega a ser hostilizado pelas esquerdas, certamente em função do amplo reconhecimento do valor de sua vida e obra, de ser um democrata liberal de centro, mas não tem o reconhecimento que merece, pois nunca rezou na cartilha imposta aos que atuam na esfera cultural dos países ocidentais, que formam um clube ou uma casta.
Publicado em : jornal Diabo.pt 13-04-2022