Bolsonaro entra em zona de desgaste

Inacreditável o que se passa no Brasil!

Um presidente eleito com 58 milhões de votos, com um programa moderno, liberal, apontando para vencer a crise na economia, no social – mais de 13 milhões de desempregados – e moral, com a Lava-Jato se tornando conhecida mundialmente pelo combate sério à corrupção, começa ver ruir o prestígio e as condições de promover as reformas. E o motivo é apenas a falta de comando político, de diálogo com o Congresso, com a sociedade. E, para completar o quadro desanimador, tem uma ala de ministros que criam problemas desnecessários. Os filhos do presidente, todos com mandatos eletivos, opinam demais e, por vezes, agridem até mesmo aliados e setores do próprio governo. É o que os brasileiros chamam de “fogo amigo”.

Reforma mãe, que é a da Previdência, esbarra no erro do governo em tê-la colocado em discussão junto com a dos militares. São situações diferentes, que não deveriam ser tratadas ao mesmo tempo para evitar comparações, mesmo que sem propósito. Depois, o governo não montou sua maioria parlamentar e não existe um comando no próprio partido do presidente.

A orientação da política econômica é correta, mas esbarra nas dificuldades políticas. Com isso, o Real cai e o investimento esperado não acontece.

O Judiciário não ajuda, demolindo a Lava-Jato com preciosismos que a sociedade rejeita. Quando um político agora é preso, aparece logo uma liberação nos tribunais superiores. No caso do ex-presidente Temer e seus sócios em negócios escusos, a ordem de os soltar partiu de um desembargador que esteve afastado de suas funções por sete anos, respondendo por atos de corrupção.

O que resta de esperança se limita ao setor da economia, que conta com uma equipe de primeira, e os ministérios confiados a militares, preparados e discretos. Outros são apenas inexperientes, o que permite a implacável crítica da mídia em geral.

O desanimador é que, para terminar com o desgaste, bastaria alguns personagens simplesmente ficarem calados. Com esses aliados, amigos e parentes próximos, o presidente nem precisa de oposição.

Pelo tamanho do Brasil, de seus números na economia, no social e no institucional, este governo parece ser a última chance de uma recuperação séria, para 16 anos de desgaste permanente. Mas, ao que tudo indica, os próximos meses podem marcar desentendimentos entre os três poderes e uma frustração enorme da sociedade, dos segmentos mais modestos a elites dirigentes e intelectuais.

O retrocesso no combate à corrupção é o principal fator da revolta da classe média. Esperar um julgamento após a segunda instância pode levar mais de dez anos. Urge uma proposta clara desta questão a ser apreciada pelo Congresso, que é sensível a opinião pública mais do que a publicada, já muito desgastada.

No mais, o Brasil, como muitas democracias, carece de uma liderança forte. Mas sem um líder no comando fica difícil enfrentar as tormentas.

Quem disser que sabe como o país vai chegar ao final do ano estará mentindo.

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