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As novas gerações não sabem o que foi a presença da boa leitura nas manhãs dos leitores dos jornais de antigamente, diria que dos anos 50 aos 80. Fazia parte do dia a dia das classes médias – que gostavam mais de ler do que de consumir – comentar estes textos, quase todos com a presença do humor, da ironia educada, da crítica inteligente. O cotidiano tinha estas abordagens do mais alto nível. E presentes nas mesas de bares que abrigavam intelectuais, como a Casa Pardelas, Villarino, Rond Point, Bar Lagoa, Antonio’s e outros onde se conversava e bebia nos sete dias da semana, em diferentes horários.
Entre os frequentadores, estavam Antônio Maria, Paulo Mendes Campos, Marcos Vasconcellos, Paulo Francis, Elsie Lessa, Rubem Braga, Fernando Sabino e Nelson Rodrigues, um timaço como se diz hoje. Cronistas, intelectuais, personagens também do cotidiano do Rio e de outras capitais, como Belo Horizonte, pela quantidade de mineiros. O humor de Millôr Fernandes e a inteligência de Sergio Porto com suas “mais certinhas”. Uma safra rica de textos gostosos de serem degustados pelas classes médias. Havia menos dinheiro circulando e mais cultura.
A burguesia da época gostava de acompanhar a vida do “soçaite”, grupo que pessoas que gostavam de receber, de circular, como dizia Ibrahim Sued, com elegância e bom gosto. E as classes médias suburbanas acompanhavam com interesse e curiosidade, sem animosidade, é claro. Estes bebiam nas colunas de Ibrahim, Maneco Muller, o Jacinto de Thormes, de Luiz Augusto Gonçalves, Reinaldo Loyo e Zózimo Barrozo do Amaral notícias dos que sabiam viver bem, que davam festas, dos “mais elegantes”. E também da primeira mulher na área, a inovadora Nina Chaves, que teve sucessora de igual talento em Hildegard Angel. Perderam os leitores e a paisagem alegre da cidade em nome do “politicamente correto”. O Rio tinha suas referências no Copacabana Palace, Sacha’s, Jirau, Black Horse e Le Bateau, para os mais jovens, e restaurantes como Le Bec Fin, Le Bistro, Le Chateau, Nino e o exclusivo Hotel Ouro Verde.
Hoje tudo tem de ter conotação ideológica, ser “woke”, tratar de gênero, minorias, menos alegre e sem conexão com o grande público.
Uma pena esta constatação. Democracia era pluralismo.
Postado em: JORNAL CORREIO DA MANHÃ 21/11/25
