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Incrível como, apesar da pandemia, em Portugal e no Brasil, tenham se dado tão modestos registros aos 200 anos do retorno de D. João VI e sua corte a Portugal. A pressão de Lisboa, com uma carta liberal que tornava o monarca figura quase que decorativa, o levou a desistir do projeto de fazer do Rio de Janeiro a capital do Reino Unido, forma de preservar a presença portuguesa nos cinco continentes, incorporando os demais territórios ao Reino Unido. Visão do grande – e injustiçado – estadista que foi.
O homem que fez do Brasil Reino Unido a Portugal e Algarves, sete anos depois de desembarcar como Príncipe Regente, criou logo instituições que dariam musculatura ao Brasil, que finalmente se tornava uma nação. Foram o Museu de Belas Artes, a Biblioteca Nacional, com os preciosos 20 mil volumes que ficaram no Rio de Janeiro, o Jardim Botânico, a Imprensa Régia e a Academia Militar.
Logo que chegou, abriu os portos às nações amigas, tendo, como executivo da entrada do Brasil no comércio internacional, José da Silva Lisboa, baiano com formação em Coimbra, depois Barão e Visconde de Cairu, já feito por Pedro I do Brasil. Abriu ainda o Brasil para a instalação de indústrias.
Outra iniciativa marcante e reveladora de sua personalidade de estadista foi a Marinha do Brasil, que adaptou navios do transporte da Corte para fins bélicos. Contratou ainda um oficial inglês, o Almirante Lord Cochrane, para estruturar a Armada, com o objetivo da tomada da Guiana Francesa logo que fosse possível. Ou seja, D. João VI está muito longe de ser o apreciador de frangos que a mídia antimonárquica legou aos livros de história.
Pouco feliz no casamento com a irrequieta Carlota Joaquina, irmã do Rei de Espanha, que só lhe causou aborrecimentos, o monarca teve problemas com o filho D. Miguel, com quem, em sua volta a Lisboa, teve de romper e exilar na Áustria. Isso porque, insuflado pela mãe e pelo padrinho Marques de Marialva, D. Miguel tentou derrubar o pai do trono. Acabou por se realizar com o filho Pedro, Imperador do Brasil e depois Rei de Portugal, como Pedro IV.
D. João VI morreu relativamente jovem, em 1826, com 58 anos, depois de marcar a vida de Portugal e do Brasil. A volta do Rei de Portugal, há 200 anos, merecia maior divulgação nos dois países.
Talvez por não pertencer a nenhuma das minorias, o que vem se tornando indispensável para figurar bem nos livros e nas mídias, em geral, é menos conhecido do que sua real importância histórica poderia sugerir. E como morreu antes de 1848, não tendo tido a oportunidade de ler e adotar o Manifesto Comunista, de Karl Marx, também não teve esta credencial, que é um passaporte para a boa fama…
Publicado em : Jornal O Diabo – Portugal/Lisboa