A MORTE DA ESPERANÇA

Esse passar a limpo do Brasil a partir da Operação Lava-Jato atendeu a uma antiga aspiração nacional: o fim da impunidade. Embora o Judiciário continue lento e protegendo alguns, as prisões e condenações já sinalizam positivamente.
Ocorre que, por outro lado, os avanços comportamentais de nossos homens públicos são praticamente nulos nessa fase iniciada com o processo de impeachment do presidente Fernando Collor e com a conhecida “CPI dos anões do orçamento”.

Surpreende que um homem público experiente e preparado como o presidente Michel Temer reincida no erro de manter políticos sob suspeição e sem conceito em sua equipe, desrespeitando a inquestionável vontade da sociedade. Esta proteção a amigos do passado não deveria ocorrer no presente em defesa de seu futuro.

O historiador e filósofo francês Jean Pierre Goff concluiu que os tempos modernos são marcados pelo moralismo, numa reação dos povos pela corrupção espalhada pelo mundo. A derrota de Hillary Clinton teve como fator determinante a questão dos e-mails; a queda do candidato conservador francês François Fillon, considerado favorito num segundo turno, foi decorrência das denúncias envolvendo sua mulher, que teria sido funcionária-fantasma. No Brasil, a presidente Dilma caiu mais pelo envolvimento do PT e seus dirigentes maiores nos escândalos do que mesmo pelas “pedaladas”. A indignação está globalizada.

Essa postura recorrente do Presidente em demorar em afastar auxiliares de sua intimidade pode matar a esperança que mantém a sociedade em paz interna. É preciso uma observação realista dos tempos modernos. Aceitar as novas prioridades da sociedade pode até ajudar a salvar muitos que erraram no passado. No entanto, deixar de enfrentar a luta contra a impunidade e os malfeitos pode causar grandes danos, não bastassem os problemas na economia. Inclusive, pela disposição dos investidores hoje, em todo o mundo, de resistirem aos interlocutores sob suspeição.

O forte apoio da opinião pública a uma seleção de notáveis sem indicação partidária, certamente, conteria qualquer represália de políticos insatisfeitos. E mais o apoio da mídia, neste ponto, identificada com o pensamento da sociedade.

A crise na economia pede um governo respeitado, mais até do que forte politicamente – este último pode parecer uma grande composição indiferente à gravidade atual.

A responsabilidade do Executivo e do Judiciário é enorme neste momento em que os políticos teimam em viver outra realidade.

 

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