MONARQUIA EM PORTUGAL?

As últimas décadas têm mostrado que os portugueses, independentemente do partido no poder, gosta de uma figura acima das disputas, um ser paternal a quem se possa recorrer em caso de necessidade. Podemos supor que de certa maneira Salazar desempenhou esse papel de monarca, pois governou apoiado pelos militares e aceito pelo povo, colocando ordem no país que estava à beira do caos econômico, político e social. Teve forte apoio popular, apesar de nunca ter cortejado a popularidade.

Depois do 25 de abril superar os anos de terror, Mario Soares, ao romper com os comunistas e apoiar à democracia, uniu o país e foi muito tempo reverenciado como um monarca. A lua de mel só terminou, infelizmente, no final de sua careira e vida, quando teve uma recaída radical e obteve apenas 3% dos votos em sua tentativa de volta ao poder. Hoje, Marcelo é o próprio Rei distribui sorrisos e conselhos com o respaldo em imensa popularidade.

A tradição histórica, cultural, do país está muito ligada à monarquia, quando o país viveu seus anos de glória entre as nações. Logo, não é uma hipótese a ser descartada em caso de se acentuar a falta de lideranças políticas mais abrangentes, o que os momentos de fragilidade costumam exigir.

A Casa de Bragança é das mais importantes ao longo da história da Europa, ligada às grandes famílias europeias desde sempre. Deu, inclusive, uma Rainha da Inglaterra, Catarina de Bragança, imortalizada no bairro nova-iorquino de Queens. Dom João VI era cunhado do Rei de Espanha e seu filho D. Pedro IV foi casado com uma irmã de Maria Luiza de Napoleão e, depois,  com uma neta do mesmo Imperador dos franceses.

A divisão da nobreza portuguesa entre miguelistas e liberais terminou quando, em 1942, Dom Duarte Nuno se casou, no Brasil, com D. Maria Francisca, descendente direta de Pedro IV. O casal veio morar em Portugal, em 1953, com o fim do banimento dos miguelistas, por iniciativa do primeiro-ministro Antonio Salazar. Aliás, antes disso, o dirigente português por quatro décadas havia concedido funerais de Rainha à D. Amelia, falecida na França e que hoje repousa em São Vicente de Fora, ao lado de altos dignitários da realeza portuguesa, tendo sido transportada em navio da Marinha de Portugal. O funeral contou com grande presença popular e também coube a Salazar a iniciativa da criação da Fundação Casa de Bragança, que reuniu os bens da Família Real e obteve uma renda mínima para que seus membros pudessem viver em imóveis espalhados por diferentes pontos do país.

Há muitas especulações sobre o que teria levado o estadista português a não adotar a solução monárquica, como o fez o Generalíssimo Francisco Franco, na vizinha Espanha. Salazar não tinha herdeiros políticos definidos e, por sua história de vida e cultura, seria natural acompanhar seu companheiro de lutas contra a ameaça comunista na Península Ibérica.

Uma das versões fala de mal-entendidos por ocasião do funeral de D. Amelia, que teria até provocado a ausência de Salazar na cerimônia. No entanto, a história é contestada pela família. Dom Nuno Van Uden, sobrinho de D. Duarte Nuno e cultor da memória e personalidade do tio, acredita que a melhor informação venha de monárquicos que gozavam de acesso a Salazar. Segundo eles, por ter vivido muito tempo na exemplar democracia da Suíça,  D Duarte Nuno acabou identificado com os países que saídos da II Guerra viviam anos de prosperidade crescente e consolidação democrática. Salazar acreditou que pudesse trazer este pensamento para um Portugal ainda não preparado para a abertura. Além disso, teria faltado diálogo mais profundo sobre o assunto. Outros acreditam que Salazar não se importaria de que, depois dele, viesse o dilúvio. O que não nos parece justo. Outra observação de monárquicos portugueses é a de que a situação seria outra se D Duarte Nuno tivesse ficado com D Teresa, irmã de D Francisca, que tinha mais personalidade.

Atualmente, a chefia da Família Real está pacificada em mãos de D. Duarte Pio, que descende tanto de D Miguel quanto de D Pedro IV, hábil no trânsito na sociedade portuguesa, tendo sido oficial da Força Aérea, cumprido missões oficiais.  É, portanto, o momento em que poderia dar início a uma institucionalização do movimento monárquico, a começar pelo restabelecimento do Conselho da Nobreza, com a revalidação criteriosa de títulos, a serem reconhecidos pela República – não como uma afronta, mas como um compromisso com a história. A volta da monarquia poderá ser aventada um dia, como o foi no Brasil, em 1993, através de uma consulta popular.

É um assunto a ser oportunamente colocado, mas que deve ser pensado desde já. Afinal, os titulados deixaram uma sucessão de famílias que cultuam os valores éticos e morais que fizeram de Portugal, através dos séculos, respeitado e admirado. Detalhe: quase todos mantendo ligações fortes com a Igreja e as famílias reinantes ou não da Europa monárquica.

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