GETÚLIO E SALAZAR AFINIDADES A DISTÂNCIA

Getúlio Vargas e António Salazar nunca se encontraram. Nem tiveram interlocutores. Mas trabalharam afinados nos anos de poder. O primeiro chegou em 1929 e o segundo, em 1930. Ambos vieram a instituir regimes autoritários, com base na defesa de seus países das investidas comunistas da época, que eram grandes. Os dois cuidaram de cooptar os sindicatos e, desta forma, amortecer a influência dos comunistas na vida sindical. Civis, governaram com total apoio dos militares.

O estadista português conseguiu ficar fora da II Guerra, com muita habilidade, a ponto de Portugal ter entrado para a NATO e a ONU, feito pelo qual a Espanha teve de esperar dez anos. Vargas resistiu até 1942, mas as tropas brasileiras só chegaram à Europa em 1944, com a Itália já ocupada pelos americanos.

Os regimes de ambos tinham a mesma denominação: Estado Novo. As linhas mestras também eram semelhantes, no apoio ao desporto e na presença de um programa cultural relevante. Em um mundo conturbado pela guerra e pelas agitações sindicais, os dois países viviam em certa segurança, em ordem e paz.  As relações com a Igreja eram boas e os empresários encontravam ambiente propício ao investimento. Salazar e Getúlio preferiam a poupança interna e os recursos públicos a um convívio com as multinacionais, que consideravam perigosas para os regimes.

Quando o governo português lançou (e manteve) seu projeto de promoção internacional denominado de Exposição do Mundo Português – Duplo Centenário –, o Brasil foi o único país a ter um pavilhão e a mandar uma delegação de alto nível, de personalidades ligadas ao próprio Getúlio Vargas, como o General Pinto, Chefe da Casa Militar, o escritor e membro da Academia Brasileira de Letras e integralista Gustavo Barroso e, como Delegado Extraordinário para a  Exposição, o historiador mineiro Augusto de Lima Júnior, que, nos dois anos de Lisboa, estreitou relações com Salazar e com o Cardeal Manuel  Cerejeira. O pavilhão do Brasil contou, inclusive, com um grande painel de Candido Portinari, notável pintor e comunista convicto.

Plínio Salgado, intelectual importante, líder católico e do integralismo no Brasil, viveu sete anos em Portugal como exilado. No entanto, curiosamente, nunca foi recebido pelo dirigente português.

A colônia portuguesa no Brasil, especialmente a do Rio de Janeiro, sempre recebeu gestos de simpatia e prestígio do governo Vargas. Já os opositores a Salazar que vieram para o Brasil eram vigiados e alertados para não desenvolverem atividades políticas relativas à Portugal. E assim foi.

O Brasil, desde Vargas, passando por JK, sempre votou com Portugal ou se absteve na questão dos estados ultramarinos. Exceto no governo Jânio Quadros, que foi uma tragédia diplomática. Além de votar contra Portugal, o que chocou parte dos segmentos mais representativos do Brasil, o dirigente cubano (apesar de argentino) Che Guevara foi condecorado numa escala de avião em Brasília, pelo próprio presidente Jânio Quadros.

O embaixador Negrão de Lima, que estava em função em Lisboa quando do voto na ONU , costumava contar com muita graça que, ao ser convocado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros por Franco Nogueira, na conversa amena que tiveram às portas fechadas, para fins midiáticos,  confidenciou o diplomata português  que já se esperava quando da escolha do Chanceler Afonso Arinos  pela sua postura sobre o tema, mas que não entenderam o voto ter sido proferido pelo número três da Missão na ONU, o Conselheiro  Antônio Houaiss, com um surpreendente“muito prazer”. Negrão disse desconhecer o que estava por trás do voto, mas já sabia um  detalhe, que não queria informar ao Chanceler de Portugal: o diplomata era brasileiro, mas de profissão de fé comunista e os seus superiores ficaram constrangidos de proferirem o voto desagradável e deixaram a cargo do numero três da legação, que como afirmou o fez com muito prazer..

Bons tempos em que Craveiro Lopes foi aclamado por dezenas de milhares de pessoas em sua ida ao Brasil e os presidentes Juscelino Kubitscheck, General Emílio Médici e General João Figueiredo realizaram visitas oficiais importantes a Portugal.

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